Nicolás Maduro não quer que você leia este texto

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Há exatos seis meses conheci o que chamo de amigo-irmão. Foram meses de conversas tagarelas em um inglês esforçado. Manuel, venezuelano, me explicava diariamente sobre uma Venezuela que eu não conhecia. Curiosa, só queria saber mais. “Se quero voltar para lá? Muito. Mas tenho medo de que nada tenha mudado. A Venezuela pós-Chavez pode ser ainda pior”.

A primeira vez que Manuel foi um supermercado em Malta foi um fato memorável. Ele estava encantando. Encantado com a variedade de produtos, de marcas, da abundância de frutas, carnes e vegetais. Sorria como bobo. Por quê? Porque no país de Nicolás Maduro os produtos pertencem ao Estado. “Para comprar papel higiênico precisamos mostrar nossa identidade, afinal, eles quererem controlar o que gastamos, quanto gastamos e como gastamos”, me disse. A democracia chavista.

E não parou por aí. Meu venezuelano preferido me mostrou dados, vídeos caseiros, documentários, fotos de opressão – do que fazem com quem ousa contrariar o regime. Fatos que a imprensa do país petroleiro não divulga. Números de 2011, do documentário “Extreme World”, o qual assistimos diversas vezes, mostram que 17 mil pessoas morreram no país. No entanto, a maioria dos crimes na Venezuela não são reportados. “Cerca de 90% dos assassinatos não são resolvidos. Há entre 10 e 14 milhões de armas de fogo em circulação, basicamente uma arma para cada duas pessoas no país. O armamento da polícia é inferior ao armamento dos traficantes. Há um número estimado de 18 mil organizações criminosas na Venezuela. Uma pessoa é assassinada a cada meia hora, 94% dos assassinatos são com arma de fogo. Cerca de 60 policias são mortos por ano em Caracas. Um dos países mais corruptos do mundo” (Venezuela Mundo Extremo – Caracas la ciudad mas peligrosa del mundo – Produção Howard Ventas, assistam aqui).

Há seis meses Manuel me disse que “tiro é coisa normal, tiro na cabeça. Se você discorda, eles sabem, não vai passar em branco”. Não fazia sentido para mim. Hoje, a resposta está nas ruas.

 Segundo o Observatório da Violência na Venezuela, por dia, 70 pessoas morrem no país. No ano passado foram 25 mil pessoas. “A inflação foi de 56% somente em 2013, a maior do mundo. O governo controla a internet. Na última semana, tentou impedir o acesso as redes sociais, como Twitter e Facebook. Os mercados estão desabastecidos. Pessoas brigam nas ruas por um litro de leite. Não há papel higiênico. Eles nos falam que se houver protestos, iremos para a prisão. Mas nós não vamos parar”, me disse Manuel esta semana.

 Os protestos estão acontecendo todos os dias. Na semana passada três manifestantes morreram em confronto em Caracas, segundo a CNN. Meu amigo está lá.  A Venezuela está morrendo. Ou acordando. Estoy contigo, amigo.

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Nicolás Maduro doesn’t want you to read this text

Exactly six months ago, I met who I call friend-like-a-brother. We had lots of conversations, always chattering in struggling English. Manuel, Venezuelan, daily talked to me about a Venezuela that I did not know before. I was curious and I just wanted to know more. “If I want to go there? Yes, very much. But I’m afraid that nothing has changed. The post-Chavez Venezuela can be even worse”.

The first time Manuel went to a supermarket in Malta, it was a memorable fact. He was delighted. Manuel was in seventh heaven with the variety of products, brands, the abundance of fruits, meats and vegetables. He was smiling overjoyed. Why? Because of a simple fact: in Venezuela the products only belong to the state; they don’t have the opportunity of food variety. “To buy toilet paper we need to show our identity. After all, they want to control what we spend, how much we spend and how we spend it”, he told me. This is the Chavista democracy.

And it doesn’t stop there. My favorite Venezuelan showed me some data, home videos, documentaries and pictures of the oppression – everything about what they do to those who dare counter the regime. Facts that the press doesn’t disclose about the oil-producing country.

According to the documentary Venezuela Extreme World, which I and Manuel watched several times, a significant number of 17.000 people died in Venezuela in 2011. However, most crimes in Venezuela are not reported. “90% of murders are not solved. There are between 10 and 14 million firearms in circulation, basically a gun for every two people in the country. The police arming is lower than the traffickers one. There is an estimation of 18.000 criminal organizations in Venezuela. One person is killed every half an hour and 94% of murders are with firearms. About 60 police officers are killed each year in Caracas. Venezuela is one of the most corrupt countries in the world”.   (Venezuela Extreme World – Caracas la ciudad mas peligrosa del mundo – Howard Ventas Production, watch it here).

Six months ago, Manuel told me that “be shooted is a normal thing, shooted in the head. If you disagree with the government, they will discover it”. I didn’t understand before. Today, the answer is in the streets.

According to the website Observatório da Violência, 70 people die a day in Venezuela. Last year there were 2.000 people murdered. “The inflation rate in Venezuela was 56% in 2013, the world’s largest one. The government controls the internet. Last week, the authorities tried to prevent the access to social networks like Twitter and Facebook. Our markets are without supplies. People fight in the streets for a liter of milk. There is no toilet paper. They tell us that if there is protests in the streets, people will go to prison. But we won’t stop it”, Manuel told me this week.

According to CNN, the protests are happening every day. Last week, three protester were killed in conflicts in Caracas. My friend is there. Venezuela is dying. Or it’s waking up. Estoy contigo, amigo.

 

 

 

 

 

 

Uma resposta para “Nicolás Maduro não quer que você leia este texto

  1. me parece meio precipitado chegar a tais conclusões baseado única e exclusivamente no que “acha” um amigo que você fez a seis meses, ainda mais quando se encontram tantas versões sobre o que realmente está acontecendo.
    mas algumas coisas são fatos: 1. maduro ganhou as eleições. 2. qualquer tentativa de tirá-lo da presidência é golpe. 3. turminha do golpe é a mesma de 2002.
    entendo a problemática que a falta de papel higiênico pode trazer a um pobre rapaz venezuelano que foi fazer uma trip em malta. mas, infelizmente para ele (felizmente para o resto da população): democracia > papel higiênico > golpe

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