Um nó

Hoje eu agradeço por ter escolhido o Jornalismo dentre as mil possibilidades. Tudo isso porque em cada pauta tomo um gole de vida. O dia de hoje foi particularmente especial: tomei litros dela.

Conheci “F”.

Menino incrível, de 16 anos, usuário de cocaína, abandonado pela família, irmão de mais três meninos possivelmente incríveis também. Ele me falou sobre a vida, sobre como se sentia mais protegido na rua do que em casa, dos amigos, dos perigos e das histórias das cicatrizes que aquele corpo, tão virgem, já tinha.

Em meio a tantas revoltas e outras almas lindas que também moram no abrigo de “F”, me veio uma vontade louca de chorar. E ela tá persistindo aqui, horas depois de ter deixado a “casa nova” daqueles meninos e me abrigado na minha.

Fico pensando na responsabilidade de ter um filho e implorando às possíveis mães do mundo: pensem muito bem antes de decidirem. “F”, de voz calma e doce e do abraço tímido, tem medo da sua mãe. Ela já o fez muito mal.

Ele também faz mal a si próprio todos os dias. Continua a usar drogas, não quer estudar e por vezes é ríspido com os educadores sociais, com os amigos, com a família que tenta contato. Todos lá entendem que esse comportamento é só mais grito de um menino tão especial que diz: eu preciso de ajuda.

Mas hoje foi ele quem me ajudou e me abriu os olhos para tantas coisas que nem o jornalismo, com mais infinitas possibilidades de se traduzir em palavras, pode explicar.

Eu reparei em cada detalhe dele. Os dedos finos, as sobrancelhas grossas, o alargador na orelha, o boné de aba reta, o olhar penetrante. Perguntei se ele tem sonhos. Querem saber qual? “Eu tenho 16 anos, eu sei que nunca vou ter uma casa de verdade. Mas eu penso todo dia que sim, eu sonho que ainda posso ser adotado.”

Dentre todos os problemas do mundo ele sonha. Sonha e mostra o que é ser “humano”. O que é perdoar e o que é querer começar de novo.

No final da manhã ele me agradeceu com um sorriso amarelo, sem jeito e disse: ”Obrigado pelo teu tempo. Eu nunca tinha conversado com uma pessoa tão bonita”. E eu me senti bonita mesmo. Bonita de alma. Alma limpa, coração doído e com um pedido para o mundo: ADOTEM.

“F”mudou meu dia. Ele sabe que tem uma bagagem grande, com buracos doloridos, mas como é doce.

Depois do abraço gostoso de tchau, ele pegou os três filhotes de cachorro que acompanhavam nosso papo, também abandonados, e que agora moram na praça ao lado, deu um beijo estalado e ofereceu leite aos pequenos. Sempre há esperança.

Hoje eu fui espectadora. Do mundo inteiro em nossa volta que só espera ser notado.

 

 

 

Uma resposta para “Um nó

  1. Cada vez que leio teus textos me impressiono mais. Não com a escrita, que é ótima, mas com o sentimento. Esse superou!

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