Lugar de mendigo é na rua. Se eles quiserem ficar.

Resgate

Uma quinta-feira de inverno. 7º graus em Curitiba. O relógio marca 21h. Entrei tímida pelo corredor infinito do abrigo municipal na Conselheiro Laurindo. Na minha frente um senhor enrolado em um cobertor preto. “Dá licença, tô entrando moço”, ele disse ao recepcionista do local, que acenou com a cabeça. Deixou o carrinho de recicláveis na porta. Uma noite quente a mais.

Meu nome constava em uma lista quando me apresentei. “Ah, você é a Camila? Vai na Kombi, né?”. Eu também acenei com a cabeça. Pela escadaria do abrigo fui conduzida a uma pequena sala. Funcionários da Fundação de Ação Social (FAS) a postos e o telefone sem dar sossego. Trim, trim, trim. Contaram-me que toda noite é assim.

Sempre soube que a Prefeitura contava com o serviço do 156, Central do Atendimento e Informação. Através dele é possível fazer reclamações, dar sugestões e por último e não menos importante, exercer a solidariedade. O que eu não sabia é quem atende do outro lado da linha, trabalha, quase sempre, com o coração. Outra coisa que eu também não sabia é que um chão gelado pode ser mais interessante que uma cama quente. É aquela sensação de liberdade, sabe?

Entrei na Kombi com a educadora social e o motorista. O primeiro chamado vinha do Santa Cândida. Uma moradora não identificada (os chamados podem vir sem identificação mesmo) contava que uma senhora dormia em um terreno baldio. O coração tremeu. A Kombi roncou e lá fomos nós. No caminho, papos sobre como era a rotina da madrugada. “Eu sou coruja, aprendi a viver e a trabalhar à noite. E eu gosto”.

Esquia como coruja e corajosa também, é a educadora que conheci. Mas por mais que seus olhos vissem mais que os meus, naquela escuridão não encontramos a tal senhora. Nem o terreno baldio. Foi um misto de decepção e alívio. Partimos.

Na volta ao abrigo, mais três pedidos nos esperavam.

Homem com cobertor, esquina da Nilo Cairo com a Marechal. Visivelmente drogado, nos viu e atravessou a rua.

Homem enrolado em cobertor na João Gualberto. Não quis ir pro abrigo.

Homem dormindo em área coberta de restaurante. Negou auxílio.

Homem com cobertores nas costas na Travessa da Lapa. “Não vou com vocês”.

Na sexta abordagem, última do meu histórico pouco longo, uma aula de vida. Chamado do Bacacheri. José, o libertário. Depois de minutos de conversa, ele também não quis nos acompanhar. Mas como sorria. Como falava bonito. Como explicava o que era a vida, porque ele estava ali e porque permaneceria. “Você quer me ajudar, quer me dar uma cama quente, quando o que eu quero é viver. Feito passarinho”. E é direito dele. E de todos nós.

Com aquela boca grande mordia sem parar o seu sanduíche, que acabara de ganhar de um morador qualquer daquela rua. “Não coloca a mão no meu sanduíche. Mas me escuta, moça. Se eu puder te falar uma coisa, te ensinar um vírgula, então escuta: não encare a vida como um problema. E tem mais: transforme o que é problema em solução”. Ele disse que não estava sofrendo, que só exercia o direito de estar onde estava. Sem atrapalhar ninguém. Livre, como passarinho. Lugar de mendigo é na rua. Ou no abrigo. Ou onde eles quiserem ficar. Vaga por aí. Voa.

——-

Na volta para casa, sobrou na minha mão um papel amassado, onde anotei cada experiência. Não sei se rasgo ou se como. Quando o texto sai, a alma relaxa. É como se alma vomitasse experiência. Há tanto a se fazer.

Em números: às 3h da manhã (7 graus) havia no abrigo 324 pessoas, entre homens e mulheres. Eu não gosto de números. Vida real: 324 histórias que precisam ser contadas.

*A foto é do amigo Daniel Caron, que gentilmente me cedeu.

 

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