Mário quer viver

nature-nature-clouds-sky-blue-sky-skies-sky-skiesUm grande par de olhos azuis. Por ora, é tudo o que se vê quando se repara naquele senhor de corpo tão magro, de voz abafada, de mãos trêmulas. E são essas mãos que nos deixam perceber a idade avançada. Veias roxas, pele picada, manchas de uma vida bem vivida. “Eu quero é viver”, ele diz.

Mário sempre teve sonhos grandes. Já acreditou, na sua ingenuidade, que a neta seria presidente do país e lhe disse isso várias vezes. “Eu sei que sim, você vai estar lá”. Esse nunca foi um sonho dela, mas, quando ele lhe falava, ela apenas sorria orgulhosa. Sabe que é o jeito dele de dizer que a admira. Hoje Mário já não sabe dizer quem é o líder do país ou quem prefere que ele seja. Analfabeto, sempre leu as pessoas pelas conversas e pelos causos que elas lhe contavam. Lia pelo olhar, na imensidão daqueles olhos azuis.

Faz quase um mês desde a última vez que eu o vi. Disse-me: “Não dá mais”. A frase fica aqui martelando, martelando. Tentei fazê-lo me contar uma história, um causo daqueles que ele sempre gostou de contar. Desistiu também de falar, “dá uma canseira”. A arte da escuta, essa que eu vinha desenvolvendo nas vezes que nos encontramos, já não funcionava mais.

Então eu fiquei ali imóvel. Respirando aquele cheiro de remédio e acariciando aquela pele fina. Os olhos azuis nos meus castanhos. É como se eu pudesse ler um livro, um livro com muitas páginas, mas com um final bem triste. A velhice nem de longe é a melhor idade. É ter cores de guache nas mãos e não poder pintar os dias. Velhice é pensar o mundo sem poder sair do lugar.

Nas primeiras páginas do livro do meu avô eu consigo vê-lo desperto. Tão livre pelas terras do sul do país, vento na cara – daqueles tão forte que dói abrir os olhos. Aquilo me distraiu e acordei em meio a grunhidos de dor. Observo meu avô de perto, torcendo para que ele nos dê mais dias de vida. Ele pede um pouco de gelatina. Dou na boca.

Um segundo capítulo poderia ser construído com tudo o que eu sei sobre a vida dele. Casou-se com minha avó – uma jovem teimosa e com pinta de índia, de nariz largo e um pouco curandeira. Cortou muito pinheiro, abriu muitas estradas. Homem simples e forte. Deu a minha mãe o nome de Ingrid porque assim se chamava a filha do dono da serraria – era uma alemãzinha que ele julgava ser linda. O miolo desse livro seria com descrições das muitas mudanças que ele e família fizeram, dessas de levar todo mundo em cima de um caminhão – gato, cachorro, fogão a lenha, dez filhos e tudo mais que eles tinham.

Perdeu alguns filhos pelo caminho. Ganhou netos. Deixou casas, comprou terrenos. Teve insônia quando conheceu pela primeira vez uma lâmpada elétrica em um quarto de hotel. Sem saber como desligá-la, lá se foi uma bota de borracha que durante a noite escondeu a claridade daquele desconhecido. Trocou de coração e ele tem orgulho dessa história. “O médico me prometeu mais 15 anos, vamos ver”.

A parte final dessa biografia eu quase nem consigo escrever. Ah, como me dói saber tão pouco dele. Ele me chama, desperto mais uma vez. Fala coisas sem sentido, perdeu toda aquela lucidez que era sua característica marcante. “Olha a cobra, cuidado. Essa não é a minha casa, não é a minha cama. Como você chegou até aqui? Tem muito mato por toda a minha a volta. Coloca o chinelo no meu pé, não posso me resfriar. Como é que você chegou até aqui mesmo?”. Faço um esforço para entender.

Ele não anda mais, diz pouco, não sai do lugar. Mas entre lucidez e embriaguez – talvez pelo excesso de medicação ou por vontade de vida – ele viaja para o primeiro capítulo. Ele enxerga uma floresta e sente, eu sei, aquele vento doído no rosto. Eu prefiro acreditar que vai ser por isso que, um dia, ele não abrirá mais os olhos. É um vento tão forte, de liberdade, que mostra que não dá mais para abri-los.

Imagino a última página. Limpo a lágrima. Despeço-me e consigo dizer um até logo. Os olhos azuis me fitam, sorriso terno. Quer viver.

Mais alguns dias até vê-lo de novo e que até lá ninguém lhe roube vida. Essa vida que mora no meu tom de azul favorito.

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